terça-feira, outubro 23, 2007

Cumpre-me agora dizer que espécie de "homem" sou.

Não importa o meu nome, nem quaisquer outros pormenores externos que me digam respeito.

É acerca do meu carácter que se impõe dizer algo.

Toda a constituição do meu espírito é de hesitação e dúvida.

Para mim, nada é nem pode ser positivo;

Todas as coisas oscilam em torno de mim, e eu com elas, incerto para mim próprio.

Tudo para mim é incoerência e mutação. Tudo é mistério, e tudo é prenhe de significado.

Todas as coisa são «desconhecidas», símbolos do Desconhecido.

O resultado é horror, mistério, um medo por de mais inteligente.

Pelas minhas tendências naturais, pelas circunstâncias que rodearam o alvor da minha vida, pela influência dos estudos feitos sob o seu impulso (estas mesmas tendências) - por tudo isto o meu carácter é do género interior, autocêntrico, mudo, não auto-suficiente mas perdido em si próprio.

Toda a minha vida tem sido de passividade e sonho.

Se faço estas análises de um modo lasso e casual, não é senão porque assim retrato mais o que sou.

De uma análise propriamente profunda não só sou incapaz, mas sou também artista demais para a pensar em fazer; pensar em fazê-la seria pensar em dar de mim a ideia de que sou uma criatura disciplinada e coerente, quando o que sou é um analisador disperso e subtilmente desconcentrado.

A minha arte é ser eu. Eu sou muitos. Mas, com o ser muitos, sou muitos em fluidez e imprecisão.

(Fernando Pessoa)