Cumpre-me agora dizer que espécie de "homem" sou.
Não importa o meu nome, nem quaisquer outros pormenores externos que me digam respeito.
É acerca do meu carácter que se impõe dizer algo.
Toda a constituição do meu espírito é de hesitação e dúvida.
Para mim, nada é nem pode ser positivo;
Todas as coisas oscilam em torno de mim, e eu com elas, incerto para mim próprio.
Tudo para mim é incoerência e mutação. Tudo é mistério, e tudo é prenhe de significado.
Todas as coisa são «desconhecidas», símbolos do Desconhecido.
O resultado é horror, mistério, um medo por de mais inteligente.
Pelas minhas tendências naturais, pelas circunstâncias que rodearam o alvor da minha vida, pela influência dos estudos feitos sob o seu impulso (estas mesmas tendências) - por tudo isto o meu carácter é do género interior, autocêntrico, mudo, não auto-suficiente mas perdido em si próprio.
Toda a minha vida tem sido de passividade e sonho.
Se faço estas análises de um modo lasso e casual, não é senão porque assim retrato mais o que sou.
De uma análise propriamente profunda não só sou incapaz, mas sou também artista demais para a pensar em fazer; pensar em fazê-la seria pensar em dar de mim a ideia de que sou uma criatura disciplinada e coerente, quando o que sou é um analisador disperso e subtilmente desconcentrado.
A minha arte é ser eu. Eu sou muitos. Mas, com o ser muitos, sou muitos em fluidez e imprecisão.
(Fernando Pessoa)
Não importa o meu nome, nem quaisquer outros pormenores externos que me digam respeito.
É acerca do meu carácter que se impõe dizer algo.
Toda a constituição do meu espírito é de hesitação e dúvida.
Para mim, nada é nem pode ser positivo;
Todas as coisas oscilam em torno de mim, e eu com elas, incerto para mim próprio.
Tudo para mim é incoerência e mutação. Tudo é mistério, e tudo é prenhe de significado.
Todas as coisa são «desconhecidas», símbolos do Desconhecido.
O resultado é horror, mistério, um medo por de mais inteligente.
Pelas minhas tendências naturais, pelas circunstâncias que rodearam o alvor da minha vida, pela influência dos estudos feitos sob o seu impulso (estas mesmas tendências) - por tudo isto o meu carácter é do género interior, autocêntrico, mudo, não auto-suficiente mas perdido em si próprio.
Toda a minha vida tem sido de passividade e sonho.
Se faço estas análises de um modo lasso e casual, não é senão porque assim retrato mais o que sou.
De uma análise propriamente profunda não só sou incapaz, mas sou também artista demais para a pensar em fazer; pensar em fazê-la seria pensar em dar de mim a ideia de que sou uma criatura disciplinada e coerente, quando o que sou é um analisador disperso e subtilmente desconcentrado.
A minha arte é ser eu. Eu sou muitos. Mas, com o ser muitos, sou muitos em fluidez e imprecisão.
(Fernando Pessoa)


1 Comments:
Muito bacana Tathi. Acho que todos partilhamos um pouco dessa característica própria dos que têm como ofício: criar, criar pensando o criado, pensar criando o pensado, transformar pensando o criado, criar transformando o pensado e pensar criando o transformado...num movimento helicoidal em que o conceito nunca é pleno de sentido e sempre precisa ser pensado e repensado por meio do movimento da realidade...é muito bom tentarmos compreender a complexidade, a complicação, o desentendimento, a insanidade, a paixão que é viver; reconhecer os ponto onde a vida vive, pulsa e incomoda. Talvez nunca encontremos nada em nossas buscas, mas o alento de sabermos que não estamos sós e que, por isso, vale a pena sermos o que somos é o que cativa nossa existência a continuarmos seguindo sem desertarmos do nosso posto.
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