domingo, maio 29, 2005

Academia

Apesar de não gostar de reproduções, mas analizar e produzir meus próprios textos e críticas , resolvi colocar esse artigo passado pelo professor Eliel, a fim de abrir uma reflexão a respeito da ideologia produzida e reproduzida atualmente na universidade.
Espero que seja de ultilidade alguma colocação !!!!

Caros amigos, fiquei muito "puto" com as manifestações racistas ocorridas na UEL semana passada, mesmo sabendo que elas ocorrem a todo momento e das mais variadas formas, dessa vez extrapolou toda a minha paciência, resolvi escrever um texto como manifestação de repúdio a esta atitute, não podemos mais tolerar as "bricadeiras" dos filhos mimados da burguesia!! leiam com atenção e se acharem conveniente repassem para seus amigos, de preferência estudantes da UEL que só pesam (?) em festas. um abraço Rafael Kenji Kuriyama.


A delinqüência acadêmica revisitada.

Um absurdo, um horror, repugnante, inadmissível, etc. Foi essa a reação da maioria dos estudantes e docentes da Uel, quando da notícia de que um grupo de médicos residentes publicou na internet comentários preconceituosos e racistas contra funcionários e pacientes do HU, coisas do tipo: “Os funcionários (trolls) são seres de altura nada privilegiada, obesos mórbidos, sem inteligência alguma, famintos que vem do subterrâneo”, ou referindo-se a uma paciente grávida como sendo uma “prenha nojenta” e até uma manifestação racista que chamava uma funcionária de “macaca de 15 arrobas”. Como uma atitude desumana dessas pôde ocorrer dentro de uma instituição (UEL) que, segundo o Sindiprol, “forma nossos cidadãos”, “é a essência humana da construção de nossa sociedade”, “um importante patrimônio social”, enfim, “É delas que saem parte importante dos dirigentes políticos, culturais e empresariais do país. Quanto mais avançado o nível técnico e humano dessas instituições, melhores serão nossos dirigentes” ?
Sem entrar no mérito da reivindicação salarial dos docentes, deveríamos - todos aqueles acreditam que a universidade reúne “as belas almas” da sociedade e que estão indignados com o fato ocorrido - rever nossos conceitos acerca da universidade. Precisamos questionar, refletir, pensar sobre o fato ocorrido, sei que raramente fazemos isso, pois sempre estamos ocupados demais com o “dever de casa” designado por nossos mestres e doutores, além do mais, existem as festas, que demandam um tempo enorme, entretanto, honremos o conceito “A” de nossa UEL (segundo o Governo) e vamos refletir, tomando emprestado a concepção de Mauricio Tragtenberg sobre a universidade, em busca de respostas:
“A universidade está em crise. Isto ocorre porque a sociedade está em crise; através da crise da universidade é que os jovens funcionam detectando as contradições profundas do social, refletidas na universidade. A universidade não é algo tão essencial como a linguagem; ela é simplesmente uma instituição dominante ligada à dominação”.
E mais,
“Hoje, ela forma a mão-de-obra destinada a manter nas fábricas o despotismo do capital; nos institutos de pesquisa, cria aqueles que deformam os dados econômicos em detrimento dos assalariados; nas suas escolas de direito forma os aplicadores da legislação de exceção; nas escolas de medicina, aqueles que irão convertê-la numa medicina do capital ou utilizá-la repressivamente contra os deserdados do sistema. Em suma, trata-se de “um complô de belas almas” recheadas de títulos acadêmicos, de um doutorismo substituindo o bacharelismo, de uma nova pedantocracia, da produção de um saber a serviço do poder, seja ele de que espécie for”.
Se apreendêssemos a realidade dessa forma citada acima, não reagiríamos com um espanto ingênuo, que busca isentar-nos da responsabilidade de tal atitude, afinal, exclamam “as mentes brilhantes”: foram eles; o pessoal de medicina; aquele “povinho metido”; é uma questão de identidade cultural pervertida (nazistas) ou um desvio comportamental, foi um caso isolado que deve ser punido exemplarmente, eu (a elite intelectual) não tenho nada que ver com isso!.
Tais afirmações demonstram a ignorância sob a qual nós vivemos, não conseguimos apreender de forma crítica as relações sociais que estabelecemos no espaço (a universidade) em que passamos, se não a maior parte do dia, ao menos a mais importante - os preconceitos, os racismos, as discriminações passam despercebidas, são naturalizadas. Não temos se quer, a consciência do que a universidade representa e significa em termos práticos na sociedade, continuamos presos nesta “casinha de bonecas” acreditando que a universidade está livre de todos os males que vigoram em nossa sociedade. Não enxergamos que as declarações dos médicos residentes representam uma síntese de todos os preconceitos que nossa classe dirigente (elitista e racista por excelência) finge não possuir, e que de forma explicita ou não, os produzimos e reproduzimos em nossas práticas cotidianas (independente do curso de graduação ou titulação acadêmica) em maior ou menor grau.
Acontece que esquecemos que a maioria dos que estão lendo este texto (discentes ou docentes) pertencem ou almejam pertencer e convive com a mesma classe social (elitista e racista) deles. “o “campus” universitário cada vez mais parece um universo concentracionário que reúne aqueles que se originam da classe alta e média, enquanto professores, e os alunos da mesma extração social, como “herdeiros” potenciais do poder através de um saber minguado, atestado por um diploma”.
Ao remeter ao outro a culpa dos males da sociedade, perdemos de vista que manifestações discriminatórias como as dos docentes de medicina vão muito além de escolhas pessoais, de uma demência aguda ou de uma estupidez inerente a todo ser “humano”, mas são produtos de uma forma de sociabilidade historicamente construída, expressam de maneira grotesca e ideológica a síntese de nossa sociedade moderna, que, coisifica o outro e as relações sociais, transformando o diferente em desigual.
Se não repensarmos, neste contexto: o papel da universidade - ela dá conta das contradições vigentes na sociedade? Esse é seu objetivo?, a estrutura burocrática esquizofrênica de seu funcionamento, fazendo com que diariamente “a criação do conhecimento e sua reprodução ceda lugar ao controle burocrático de sua produção como suprema virtude, onde “administrar” aparece como sinônimo de vigiar e punir – o professor é controlado mediante os critérios visíveis e invisíveis de nomeação; o aluno, mediante os critérios visíveis e invisíveis de exame. Isso resulta em escolas que se constituem em depósitos de alunos, como diria Lima Barreto em “Cemitério de Vivos”.” - , a postura pedagógica (ensino-aprendizagem) que consiste à grosso modo “no decorar determinados “clichês”, repetidos semestralmente nas provas que nada provam, nos exames que nada examinam”. Continuaremos a sair da universidade com a sensação “... de estar mais velho, com um dado a mais: o diploma acreditativo que em si perde valor na medida em que perde sua raridade” reproduzindo, dessa forma, a mediocridade, esta sim universal. Quem sabe não passemos a encarar (se já não encaramos) tais atitudes (como a dos médicos residentes) como algo natural, talvez até façamos um estudo sobre o ocorrido, para justificar, de modo cientifico, a estupidez dos filhos da Burguesia.
Todas as citações sublinhadas foram retiradas do texto: A Delinqüência Acadêmica, publicado em: TRAGTENBERG, M. Sobre Educação, Política e Sindicalismo. São Paulo: Editores Associados; Cortez, 1990, 2ª ed. (Coleção teoria e práticas sociais, vol 1)

RAFAEL KENJI KURIYAMA. Estudante de Ciências Sociais/Noturno desta universidade “pública”, 15/05/2005